Uma história de coragem, garra e, sobretudo, amor

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Maria das Graças Xavier Lima não deixou que os obstáculos ditassem as regras de sua vida. Assumiu o comando e definiu que seria feliz

Estatura baixa, sorriso no rosto, jeito despachado. À frente de sua mesa, ela olha os papéis e fala altivamente no telefone. Esta é a cearense Maria das Graças Xavier Lima, 45 anos, de Canindé, um município no agreste cearense. Ela é proprietária da vidraçaria GV em Praia Grande e há mais de 25 anos vive longe de sua terra natal.

A história dessa mulher começou nas lavouras de Canindé. Lá, as pessoas viviam basicamente da pesca, agricultura e criação de bovinos. A sua família era da banda agricultora e desde os nove anos de idade ela já ajudava seus pais a cultivar a terra e, assim, fortalecer o sustento da casa.

Nessas andanças ela conheceu seu primeiro marido e se casou menina, aos 16 anos. Mas como grande parte dos nordestinos, ele(o marido) também tinha um sonho, ganhar dinheiro no Sudeste. E assim ele partiu em sua empreitada em busca de melhores condições e deixou Graça para trás com três filhos para cuidar.

Ela decidiu vir a procura dele, que estava há anos sumido, e ao chegar aqui deparou-se com a triste realidade, ele não a havia incluído em seus sonhos de progresso, e com a roupa do corpo e três crianças a tira colo começa a parte caiçara da história dessa guerreira do agreste.

Ganhando a vida

Graça chegou a casa de sua irmã, em Cubatão, e tratou de arrumar rápido serviços em casas de famílias santistas como faxineira. Por muito tempo sustentou seus três filhos dessa forma. Mas ela tinha sonhos e queria muito mais.
Em sua empreitada, ela trabalhou como cozinheira, garçonete, balconista, costureira entre outras atividades. Sem estudo, tinha apenas feito até a 4ª série do ensino fundamental, ela não conseguia arrumar outros empregos, como o de secretária que era um de seus maiores desejos.Maria das Graças Xavier Lima2

O fato era, que a sua infância pobre no nordeste e como consequência o pouco estudo e a falta de experiência eram fatores determinantes que dificultavam na hora de conseguir um trabalho melhor.

“Eu enfrentava as filas para fazer entrevistas, mas quando as pessoas pegavam a minha redação e viam os erros, me reprovavam, e isso me deixava triste”, conta.

Após passar mais de dez anos nas faxinas, Graça superou os obstáculos e começou a mudar sua história. Determinada a ter uma vida melhor para si e sua família, ela conseguiu dois empregos e juntou dinheiro para montar seu próprio negócio e completar seus estudos.

Graça passou oito meses trabalhando como auxiliar de limpeza em uma danceteria de Praia Grande durante a noite e a luz do dia ela faxinava ônibus para uma empresa de transportes rodoviários.
“Dormia duas horas por noite, cinco dias por semana, chegava a faxinar até 40 ônibus em um dia”.

Ela passou oito meses trabalhando praticamente 20 horas por dia. Na danceteria, ela entrava às 18 horas e saia às 6, já na transportadora ela pegava no batente às 8 da manhã e largava às 17.
Essa batida cotidiana foi o passo inicial para que Graça desse uma giro 180ºem sua vida. Já casada com seu atual marido, Wanderley, ela tirou um dos dias de sua folga e foi trabalhar com ele em sua serralheria, e tomou gosto pelo serviço.

Pouco tempo depois ela pediu baixa nos dois empregos e abriu a sua própria serralheria e vidraçaria, onde trabalha junto a mais três funcionários desde 2005, um deles seu filho, o quarto de cinco.

Graça não tem medo do serviço, ela corta vidros, faz orçamentos tira medidas e negocia. Não se intimida por lidar mais com homens, do que com mulheres. Segundo ela esse fator nunca a atrapalhou, muito pelo contrário, é ela quem dá as cartas.

“Eu sou assim, vai ser assim porquê meu preço é acessível. Eu não perco negócio”, afirmou calorosamente.

 

O lado família

Um dos fatos que fez essa mulher de fibra seguir em frente foi o amor. Amor a seus filhos, amor a Deus e principalmente amor à vida.

Todos as suas crias frequentam a mesma igreja que ela e fazem parte das atividades. Ela se diz muito feliz pelo caminho que tomaram as vidas deles, bem diferente da dela, e agradece com veemência a Deus por ter feito isso em suas vidas.

“Com ele(DEUS) presente em minha vida, posso conseguir tudo, eu posso fazer tudo”, disse ela.

Muito orgulhosa, ela segura um álbum com fotografias dos serviços entregues nos mais diversos lares da região, e mais orgulhosa ainda ela aponta um rapaz no fundo de sua loja e diz:

“Foi ele quem fez, meu filho, ele faz todos esses portões aqui”

Sorridente lá do fundo ele grita, “Alguém tem de pôr a mão na massa né, mãe?”, brinca o rapaz.

Mãe de cinco filhos, essa mulher tem ainda de articular dificuldades de relacionamento entre o esposo e o seu filho. Um dos fatores que a levou a abrir a sua serralheria era a falta de entrosamento entre os dois. Para evitar problemas e manter a tranquilidade do lar, ela agiu rápido e montou o negócio e seguiu bem com ambos, que convivem harmoniosamente.

Maria das Graças Xavier Lima1

 

Estudos

Mesmo sendo mãe, mulher e empresária, ela não esqueceu os estudos e em 2005 ela procurou um supletivo, por não ter o histórico antigo, ela teve de fazer uma prova e determinaram que ela deveria prosseguir a partir da 4ª serie do ensino fundamental.

Para muitos, isso seria um desânimo, mas o nordestino carrega um insígnia de provações nas costas e a força de seus combatentes, como o cearense Padre Cícero, mais conhecido como Padim Ciço.

E Graça não é uma exceção, passo a passo ela concluiu os estudos. Completou o ensino fundamental, em seguida o médio, fez um curso complementar de Contabilidade e se formou tecnóloga em Turismo e Hotelaria. Mas o mais interessante nessa mulher é que mesmo após as suas conquistas, ela se define em duas frases, uma projeta o seu futuro e outra conta a sua história.
“Sou simples e determinada”, define a mulher que fez de seus obstáculos combustível para uma vida melhor, que saiu de casa com três filhos, ganhou o mundo e veio fazer de Praia Grande o lar de seus sonhos e conquistar o que seu primeiro marido prometeu, mas não cumpriu. No entanto, ela alerta: “Eu ainda não cheguei aonde quero chegar”, diz prevendo muitos sucessos pela frente.

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